ZÉ DA SAIA

31/maio/2008

Figura ímpar, único na cidade: usava saia, enorme saia parecendo saca de café invertida. Na verdade, um vestido, feito de saca cortada ao meio, nos fundos – em vê –, onde passava a cabeça, e nos cantos – os braços. Simples, simplérrimo, sem dúvida. Saião rústico, marron, cor de terra, terra vermelha dos sertões. Completava a indumentária, um enorme rosário de pérolas alouradas, com vistoso crucifixo preso ao pescoço.

Zé da Saia, assim era conhecido, falado á boca pequena. Na prática seu José, homem de respeito. Respeito de verdade. Todos tinham ciência de sua história, triste história de um passado de dor. Dor sem volta. Tragédia nunca tem retorno, exceto nos sobressaltos: fantasmas e saltimbancos.

Zé da Saia, sempre à pé, andava ligeiro – chinelos de couro cru –, assim o vi pela primeira vez. Olhar reto, sempre adiante, a passos longos. Bom dia…Boa tarde! quando necessário, mas com cordialidade. Cabelos longos, muitos longos amarrados à rabo-de-cavalo. Parecia mulher, mas não era.

Ostentava portentosas pernas cabeludas, muitos cabeludas – via-se claramente – todos viam; barba, barba longa com indícios de magoas antigas – pressentia-se. Impunha respeito pelo silêncio pesado, penoso, por alguma dor que carregava às escondidas, auscultada de todos nos passos deixados na estrada.

Vinha da aula quando o vi. Chiquinho comentou: é o Zé da Saia. Papai o conhece. Conversou com ele. Mora pelas bandas de Francisco Alves. Não é nada disso que pensam a seu respeito. É dono de venda. Comanda um time de futebol. É casado, tem filhos. Gente de princípios, um amigo.

O problema: carrega um castigo até o fim de seus dias…desobediência ao pai.

– Sim , mas e daí, que figura, não!

Cochichos à parte, quem nada sabia ficava boquiaberto. Infelizmente, temos a mania de avaliar as pessoas pela aparência, como lavoura que cresce no descampado. Zé da Saia não era lavoura; era fruto de uma desgraça. Coerente, levou-a às últimas conseqüências. Coisa de promessa mal pensada.

Conto melhor… segundo descrito por pessoas próximas que privavam de sua amizade.

Num triste dia, fatídico dia de infância que vai longe, derrubava mato com seu pai. Primeiro foi a roçada por baixo, corte de árvores menores, arbustos entranhados: a limpeza. Trabalho suado e cansativo. Depois veio o corte das árvores maiores: angico, cedro, ipê, perobas, muitas perobas. Todas enormes, centenárias. Os dias não tinham fim, nem a luta, nem o cansaço. Cavaco a cavaco, pancada a pancada, fendia-se o imensidão silenciosa de troncos quase intransponíveis. Derrubada só no machado, machado frio, afiado ali mesmo na tempera da lima. Uma a uma, iam-se derrubando velhas árvores, frondosas árvores.

O jovem José, orgulhoso, ajudava seu pai – Josias.

Derruba aqui, derruba ali, iam derrubando tudo. Lá num canto algumas árvores escoradas, engaçadas, empoleiradas resistindo à queda bravamente: enorme caieira – chamavam de “égua”.

Seu Josias, bem que ainda avisou:

– Filho, cuidado! Árvores entreveradas não têm tombo certo. Não adianta aprumar o olho, fazer barriga, dirigir o corte.

O filho, novo no ramo, se encheu de razão.

– Pai deixa comigo, sei o que faço. Continuou batendo firme…erguendo cavacos.

O velho ainda insistiu:

– Filho, cuidado! pode cair prá cá, sobre nós. Estava próximo de Cazuza.

O velho Cazuza também alertou:

– É coisa feia… trem sem rumo mata boiada.

José respondeu:

– Sei o que faço, aprendi com o senhor – papai.

– Deixa comigo.

Se cair pro seu lado, prometo que visto saia a vida inteira.

– Pare com isso, filho! Deus castiga. Que promessa louca.

– Cuidado!

Não deu tempo, tudo veio abaixo, estrondo enorme de acabar o mundo. Lasca de galhos prá todo lado. Tudo sobre seu Josias – o velho.

Desespero, gritos, um salve-se quem puder. Nada adiantou. O que parecia impossível aconteceu: tudo desabou onde estava seu Josias.

Caiu duro, morreu ali mesmo esmagado sob os escombros. Maldição. Infâmia. Desgraça. Promessa.

Atônito, José, nada mais via. Sequer atinava. Palavra dada era palavra dada – pensava estupefato. Juramento então, juramento não tem volta.

Voltou prá casa, avisou a mãe aos soluços contando o ocorrido. Ato contínuo, apanhou uma velha saca de café, preparou um vestido à seu modo, vestiu e partiu mundo afora. Assim contavam o ocorrido.

Agora, ali andava ele, homem já velho, caminhando. Que alma! Deus deve saber. Inspirava sossego e angústia de apelos incomensuráveis.

Conta-se que sofrera muito nas caminhadas da vida, na amarga escola do mundo. Incompreendido, zombado, judiado, mas apesar de tudo tivera coragem. Tudo enfrentará com obstinação, o castigo impagável, a amarga jura da palavra empenhada.

Via-se, isso no seu olhar, olhar cansado de quem vai à guerra. Apesar de tudo, era gente boa. Percebia-se nos seus passos, passos cansados de quem vai à caça do tempo perdido.


TEIMAS DE ANÉSIO

31/maio/2008

Apequenado de tamanho – pouco mais de metro e meio -, nunca de teima. Só podia ser Anésio: tiguerado feito joá amarguento, espinhoso e reticente. Sobressaia-lhe a feição soturna: um par de olhos miúdos e enfiados na testa, e as pernas arqueadas de domar burro bravo. Rude e indomável, toda sua formação vinha da escola do mundo, do mato, já que pouco freqüentará a cidade. Pedra podia ser pedra, desde que estivesse de acordo. Do contrário, podia ser pau, o diabo. Mudar de idéia!…Nunca. Não era doido, nem vassoura varrida.

Prá azedar o homem chegando à lua (1969, julho, dia 20, coisa de 23:56:31). Anésio empombou-se, desandando de vez. Naquela tarde, como de costume oitavado no balcão do boteco interiorano, indignado e incrédulo, confabulava:

– Pousam em algum cafezal geado, e dizem…

– É a lua.

– Diabo! É o fim…

– Rafaelão, ao lado – cabisbaixo – repuxando a aba do chapéu, assente:

– É!… Em quem confiar? Mexer com Deus é o que querem.

Afrontá-lo, afirmar o contrário, quem ousaria? Matias Vilaverde, o mais valente, mesmo com três culhões , escafedeu-se.

Anésio – figura intrépida – de birra invocava por qualquer coisa. De índole imprevisível, voltava-e-meia, depois de alguma cachaça, metia-se em encrenca. Qualidade única, se era: resolvia as diferenças no braço. Nada de arma branca, de bala.

Implacável, meias-botas de couro crú, barreadas e ressequidas, adentrava diariamente à vendinha do interior. Coisa de final de tarde, 17h00 horas.

– Uma cachaça, seu Luiz!… Copo à mão, depois de oferecer aos presentes, cortesia de boteco, de uma talagada, entornava. De bate-pronto, disparava uma cuspida a capricho na alquebrada parede. O torpedo descia escorregando entre sacos da farinha de mandioca, adernando-se na velha prancharia de peroba.

Contrariado, naquela tarde, mastigava freios. Eis que surge Américo, sujeito franzino, uma besta humana. Fofocas mal resolvida atravessaram o caminho. E ambos deram-se à forra.

No gramado, do lado de fora da vendinha, o pau cantou. Socos, pontapés, rasteiras. Tudo a rodo. O velho granjeara fama de ser bom de rasteira, de roda-botas. E não deu outra, a surra foi das boas. De parte a aparte, ameaças de morte e promessas de tiros. Calaram-se, todos se calaram na velha vendinha interiorana. Ainda bem. Ninguém viu, muito menos ouviu nada. Roupas esfarrapas, chamuscadas de grama, esverdeadas. E só.

Todos sabendo de tudo. Vazou. Anésio, pai de família, andava de caso com uma cunhada. O comentário partiu de Dona Maria, a parteira. Dona Ana, irmãs de Delcides, mulher de Anésio, acabará de dar a luz a dois gêmeos. Veio abaixo o mundo, ficou pequeno o lugarejo. Cochicho espichado, longo, de azucrinar. Reboliço adoidado. Rezadeiras, resignadas, benziam-se. O capeta anda solto, comentavam.

E pra completar… Mais confusão no povoado (caralho que o parta!): Dilma, mulher de Zé Baiano deu em flertar com Zé Pernambuco, seu melhor amigo de pescarias. Pegos em flagrante, o lugarejo ficou pequeno para tanta zoeira. Nada demais, se tudo não estourasse na venda de seu Luiz, domingo à tarde.

Baiano que jogava bocha, diante da chegada de Pernambuco, não titubeou, ergueu a camisa, alçou a velha a garrucha e tascou fogo. Coisa de dois tiros: um de cada cano. Um corre-corre dos diabos. Felizmente, entre mortes e feridos todos se salvaram. Baiano, andava mal de pontaria.

Anésio, encurralado por Delcides, a infeliz esposa, passou a dormir na tuia de café, encima de uma velha lona, arreiada de fazer dó.

E dias desses, meteu susto na vizinhança. Coisa de meia noite, todos ouviram estampidos, disparos de arma de fogo vindo do rancho ao lado. O barulho ecoou surdo pelos carreadores, captado por meio-mundo.

– Deve estar morto, esse filho duma puta, cismou Delcides.

Todos correram ao mesmo tempo. No escuro, o cheiro de pólvora era insuportável. Pelo jeito detonara os dois canos de uma única vez. Seria contra o peito, contra a cabeça. Onde estariam os miolos? Certamente dependurados no teto. Que nada!

Veio a baixo o mundo:

– Avante, sosseguem, esbravejou furioso o vivente, afundado no rancho!

– Levem o rato com vocês!… E lançou o estranho imbróglio sobre Neusa, a filha mais velha.

Assim era Anésio: imprevisível. Dera cabo de um rato a tirambaços, tirambaços de-acaba-mundo, abrindo o teto do velho rancho.

Entreolharam-se, todos se entreolharam boquiabertos, enorme furo no teto; taboinhas voaram. Concertá-las à noite… pouco provável. Chovia. E a chuva tudo molhava.

E Anésio deu de recarregar a chumbeira de cano duplo. Socava a vareta cano adentro e socava: pólvora-e-bucha, chumbo-e-bucha, às camadas. Em seguida – batendo na concha da mão -, ajustou a espoleta. Incontinenti e negaceando, armou o gatilho. Olhos esbugalhados de caçador de nuvens. Apavorados, todos deram o fora.

Naquela noite os disparos, intermitentes, cadenciavam-se de quando em quando, rebombando pingos de chuva.

Anésio era Anésio: desnorteado atirava à toa.


INCANSÁVEL VÔO

31/maio/2008

Tantos sonhos perdidos

de forma definitiva,

ó incansável

águia!

Voraz solidão

sem plano:

O oculto e o branco

sobrepondo-se.

Infinita bondade

revestindo carruagens.

Tantos

vôos:

oculto

silêncio,

ocultas

rochas

E você à espera

do mar.

Mar que nunca

retorna como ontem.

Apenas cordilheiras

aguardam o tempo.

Tempo eterno

das caravelas andantes.


ÁSPERO EXÍLIO

31/maio/2008

É sempre noite

quando retornas

em fragatas

de frágil trajetória.

Pressentimentos estranhos,

planuras.

É sempre noite

quando recolhes

o vinho tombado

no copo recomposto.

Gesto amargo

de áspero exílio.

É sempre noite

quando ensejas vôos

em negras caravanas

ao inscrever a lua

no círculo das lágrimas.

É sempre noite

quando voltas à casa dos ventos

para recolher o verbo.

Memória indivisa

nos vitrais do mundo.

É sempre noite

quando voltas ao ninho das serpentes

para recolher a sombra da lua.


RAMADA DE GUACHOS

26/maio/2008

Pequenos pássaros: negros pássaros com traços avermelhados. Regurgitante cantar. Cantar açodado. Cantavam voando. Triste cantar. Pressentiam novos tempos. Desolação. Seus ninhos: obra prima da natureza: longas e belas bolsas trançadas, alças presas nas ramadas, ao alto, estendiam-se suspensos no ar. E cantavam as mães, e como cantavam naquela manhã ensolarada. Iam e vinham trazendo comida aos filhotes que, famintos, grunhiam asperamente.

Nos coqueiros que sobraram após o desmate, depois da queimada que a tudo devorou, ficaram os ninhos, esticados ninhos desolados na imensidão do descampado. Como menino, pouco atinava, apenas acompanhava o cenário.

Construído à margem do rio, o moinho de fubá do Gijo, despontava sobranceiro. Bela construção. Tudo feito à base de madeira: rodas e dutos d’água.

O lago – pouco acima do engenho -, desviava a água por um canal que por sua vez movimentava pedra-contra-pedra: a engenhoca – onde grãos de milho, lentamente, transformavam-se em farinha.

Mundo novo, mundo de criança: ambiente paradisíaco era o que vislumbrávamos.

Papai, na sua égua baia, levava milho e trazia fubá. Saborosa polenta, à vista. Polenta com queijo, salame e radiche. E a fortaia, então… Que delícia!

Numa manhã de domingo, o mundo veio abaixo. – Papai foi chamado às pressas. Cães foram atacados por víbora venenosa, provavelmente cascavel. Um morreu na hora, e o outro, duas horas depois, em lenta agonia. A ordem era taxativa: localizar a fera. E quem se atreveria? Onde ocorrera o incidente?

Gijo o caçador, que seguia os cães, apontou o caminho: – É por aqui. E todos, armados até os dentes, o seguiram. A pequena violeta que nada sabia, à frente. Agudo faro: tudo prescutava.

Manhã de domingo, bela manhã. Ao largo, na outra margem do ribeirão barreirinho, estendiam-se extensas florestas, a dar fim. Ali, caçadores faziam ceva, abriam trilhas. Antas, catetos, onças, pacas, cutias: todos deitavam campo. Sustento farto. E deram de cruzar uma lavoura de arroz, e não deu tempo… zap! Violeta deu um salto súbito, e caiu agonizando.

É a cobra, gritou Gijo. – Segura pessoal. Todos olharam para os pés, para trás e para diante. Violeta contorcia-se de dor. E lentamente agonizava, grunhindo.

Lá estava, à boca da toca, e sobressaindo, a fera: enorme cascavel, batendo os guizos, furiosa. Enrodilhada, armava novo bote. E que se atrevesem!

Foi quando Armindo, velho caçador, adiantando-se, abriu fogo. Tiro na cabeça. Disparo mortal. Contorceu-se a cobra, contorceu-se, e entregou-se. Dezoito guizos, cobra criada, foi o que contaram. Não satisfeito, Gijo tascou o facão e, de dentro da barriga, saltaram filhotes. Uma ninhada. Armando-se, ensaiavam atacar. Assustados, os camponeses deram cabo à desgraça. Mal deu tempo, e Gijo bradou a toda: – olha outra. Não fosse o facão de Juvêncio, interceptando-a a tempo, e a desgraça seria imprevisível. Refeitos da refrega, após conferir o entorno, prenderam as víboras num cipó, levando-as para casa; e Armindo, a pequena violeta, às costas. Distanciados, seguiam cabisbaixos.

Como criança, ficamos perplexos. Triste manhã, trágica manhã de domingo. Inesperados acontecimentos. O cantar dos guachos ficou triste; pressentiram a tragédia. Somente os filhotes, famintos, cacarejavam sem parar. No mais: um silêncio mortal.

A natureza, ao mesmo tempo em que é bela, revela-se cruel: dois fogosos cães, a pequena violeta e duas cascavéis de portentoso tamanho – lado a lado – estendidos no chão -, emprestavam à paisagem um ar de desolação. Tristes cena, inóspito cenário.

E, todos, a seu modo, entreolhavam-se abestalhados.


MÃEZERA

26/maio/2008

O Cipó-imbé: filho pródigo da mata atlântica. Dele, pessoas simples – os cipoeiros – apropriam-se, fazendo artesanato. Retiram-no da floresta: fundos de vales, encostas. Da planta mãe – a mãezera -, alojada na galhada das árvores desprendem-se raízes adventícias; sucumbentes, buscam o solo. Depois de beneficiadas, resultam em fibras de apreciável valor. Manuseadas pelos artesãos geram utensílios e souvenires diversos: cestas e arranjos, adrede preparados. Garuva projeta-se como pólo produtor, e laborador de artesanato de cipó.

Em razão da legislação vigente – Lei da Mata Atlântica – a atividade de uma hora para outra, à margem, passou à clandestinidade. Centenas de famílias, que tem na atividade seu “ganha pão” sentiram-se alijadas, legadas à contravenção: “perigosos criminosos”.

Ora, esquecem-se os órgãos ambientais, os ecologistas de plantão, que todas as atividades humanas estão intimamente associadas à natureza. Do reino animal, vegetal e mineral provém tudo o que serve ao homem e seu engenho. Se há abusos, e exageros, é outra história. Que seria de nós sem alimentos, e sem fibras?!

Felizmente, no caso do cipó imbé, um grupo de jovens universitários: UFSC e UDESC e técnicos da Epagri, com apoio da Prefeitura de Garuva, meteram a mão na massa. Resultado: pesquisa e extensão, um trabalho integrado com os cipoeiros. Ao invés de enxotá-los, como é praxe do ambientalismo bissexto, integraram-nos, inserindo-os num projeto de valorização da cultura local. Mapeadas as áreas de produção na floresta, pesquisa-se o cultivo, a retirada sustentável; de outro lado, desenvolvem-se tecnologias visando facilitar o processamento da matéria prima: redução do uso de enxofre, por exemplo. E o design? Novas figurações à vista. E o marketing, então? É a visão da sustentabilidade.

Parabéns à nova geração de ecologistas: pragmáticos e aliados de nossa gente simples e de tempera inigualável. Novos tempos à vista. Mãezeras agradecem.


BEZERRA MALHADA

26/maio/2008

Quis o destino que nos idos de 1980, em plena juventude, viesse a assumir função responsabilidade. Convidado para comandar o setor agrícola de Joinville, acabei por assumir a direção da Fundação 25 de Julho. Isso mesmo, depois passou a “municipal”, e mais tarde denominaram-na “de desenvolvimento rural”. Sinal dos tempos, é claro.

A Fundação, de largo conceito, respondia pelo setor rural do município. O prefeito Luiz Henrique, jovem e dinâmico, imprimia um ritmo popular à administração local. A logomarca não negava: “O povo Governa”. Duas mãos entrelaçadas, logo acima da frase, confirmavam o propósito. Jovem e pouco experiente, embora com larga vivência na roça, encarei o desafio com naturalidade.

De início, como bicho estranho, os agricultores negaceavam. Viam-me como uma espécie de intruso. Aos poucos, fomos dando jeito, e em pouco tempo estávamos perfeitamente sintonizados.

Nunca me esqueço, porém, do primeiro dia. Após ouvir um a um todos os servidores, anotando os pormenores, no final do expediente parei para dar uma respirada. Mal deu tempo. Olhando pela janela, no pasto em frente, vi uma vaca parindo. Era uma vaca malhada – preta e branca -, uma portentosa holandesa.

A cria deslizou suave – nascimento rápido e sem traumas. Ora, o que fazer naquelas alturas? Todos haviam se retirado. Nem, nem o responsável de campo se encontrava. O Veterinário, como encontrá-lo? Onde achá-los àquela hora? Impossível.

Pensei – só resta uma alternativa: meter a mão na massa. Foi o que fiz. Dirigi-me ao local, mas a vaca-mãe não estava prá brincadeira e me botou pra correr. Então fui até o estábulo, apanhei uma saca vazia, daquelas de estopa, e voltei à carga. Zap!… Agarrei a bezerrinha, uma fêmea fogosa. A mãe distraíra-se, foi o suficiente. Quando avançava sobre mim, com a cria nos braços, me protegia, antepondo-a. Assim, por bom tempo nos driblamos até adentrar no curral. Exausto, respirei aliviado. O resto do plantel ficara a campo. Estavam livres, a vaca e a filhote. Incontineti, fechei a porteira. E lá ficaram as duas. A mãe lambendo a cria, e está, às cambalhotas, tomando o primeiro colostro. Tudo sob controle, dei o fora.

No caminho, fui pensando: Ah, meu Deus! Que será da coisa pública? Melhor: da vaca e da bezerra municipal?!

No outro dia, ao nos revermos, a mãe vaca largou um mugido longo e suave. Retruquei com berros de alegria. Reconhecemos-nos, ficamos amigos. A cria – carinhosamente denominada Malhada -, sobejamente amamentada, em disparada, largava coices no ar. De imediato, nos reconhecemos pelo cheiro. Cheiro de bicho é claro.